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quinta-feira, 27 de junho de 2013

I Arraial do Papel no Varal faz estreia promissora com muita animação e poesia matuta

O sarau poético fez parte da programação junina da Prefeitura: “De Jacinto a Tororó, São João é em Maceió” e reuniu o maior público já alcançado pelo projeto.

Por Nathalia Leal

Uma noite de lua cheia, repleta de cores, bandeirolas e animação, marcou o I Arraial do Papel no Varal, nesse 25 de Junho. Ambientado no Arraial Central da Prefeitura de Maceió, o sarau poético atraiu um público extenso e heterogêneo – muitos foram os que estavam participando e lendo poesia pela primeira vez, o que enriqueceu ainda mais a celebração.

A recepção foi feita pelo grupo de forró Mistura Fina, que animou os presentes. Casais dançavam e rodopiavam próximos ao varal de sisal. A performance de abertura do sarau foi feita pelo animado ator Paulo Poeta, que leu uma poesia do alagoano Tonho Lambe-Sola, arrancando  palmas e risos calorosos do público. Zabumba, triângulo e sanfona do trio-pé-de-serra Os Mais Fortes do Forró introduziam a chegada animada de cada pessoa que ia ao palco dizer poesia.

Presente pela primeira vez no Papel no Varal, a estudante Karen Pimentel, 17, afirmou: “Estou gostando. É importante dar a oportunidade de todo mundo se expressar, mesmo que através da palavra dos outros”. Laryssa França, 21, leu Biu de Crisanto no palco e ressaltou a importância do evento: “É um encontro de poesia, e isso é muito raro”.

A presença de Eliezer Setton deixou a noite ainda mais calorosa e atraiu a atenção daqueles que passavam por perto: o músico, que introduzia suas canções através de causos e cantou clássicos como “Coco 2000”, acabou sua apresentação sendo aplaudido de pé. A Associação Alagoana de Ciclismo também prestigiou o I Arraial do Papel no Varal, com direito a leitura de poema no palco, com bicicleta e capacete.

Cantadas audaciosas enviadas pelo correio elegante, a boneca de pano, o “troféu macaxeira” e a irreverente apresentação de Ricardo Cabús aumentaram a dose de humor, já garantida pela seleção dos poemas matutos de Xexéu Beleléu, Chico Doido do Caicó, entre outros. Houve também entrega de brindes Ao Pharmacêutico àqueles que melhor entoavam os versos, como a jovem Eduarda Leite, de 12 anos.

Outras pessoas também se aventuraram na leitura. É o caso de Gerson Nunes Siqueira, de 55 anos: “Eu leio mal, gaguejando, mas vou ler. O poema fala da história de onde eu ‘vim’, do sertão.” – afirmou, enquanto esperava ansiosamente ser chamado ao palco.

Arriete Vilela, escritora e frequentadora assídua do Papel no Varal, demonstrou sua admiração à continuidade do projeto e sua capacidade de expansão: “É uma iniciativa que vem crescendo, e o melhor: saiu de um círculo pequeno de escritores e leitores alagoanos e hoje está num alcance popular. Gosto muito da ousadia do Ricardo Cabús”.

Apesar da seleção de poemas majoritariamente “matuta”, a leitura dos versos de Manuel Bandeira em “O Trem de Ferro”, feita por José Márcio Passos, arrancou aplausos – o ator também leu “O Gato do Vigário”, de Lêdo Ivo, num clima de grande descontração. As interpretações cuidadosas de Arilene de Castro e Demis Santana – com seu enfeitado chapéu de cangaceiro – também foram de grande destaque. Chico de Assis fez duetos interpretativos com Paulo Poeta, com direito a homenagem ao tradicional pastoril, coco de roda, guerreiro e às nuances coloquiais nordestinas, no encerramento do sarau. Os dois atores entoaram canções folclóricas e arriscaram uma paródia da típica procissão interiorana, aproveitando a animação do público. “A festa acabou. Até ano que vem, se ‘nós vivo for’!”, disparou Chico, em tom de brincadeira.

O evento encerrou-se ao som do trio Os Mais Fortes do Forró, que tocou peças do repertório de Jacinto Silva e Tororó do Rojão, de acordo com o tema escolhido pela Prefeitura de Maceió para os festejos juninos de 2013. Apesar do clima de fim de festa, os casais continuavam sua dança animada, ao som do forró.

O I Arraial do Papel no Varal superou as expectativas e recebeu o maior público de todas as edições do projeto: ao todo, é possível estimar um alcance de cerca de mil pessoas, dentre as que estavam de pé e outras que lotavam as 600 cadeiras ou permaneciam assistindo o sarau por algum tempo. Celebrando a rica cultura popular nordestina, o evento contou com uma atmosfera agradável e animada, permeada por sorrisos, cores e poesias, numa noite bastante interativa.

domingo, 11 de dezembro de 2011

Uma folha de relva no Papel no Varal

Uma folha de relva
Brian Patten
Tradução: Ricardo Cabús

Você pede um poema.
Eu ofereço uma folha de relva.
Você diz que não é suficiente.
Você pede um poema.

Eu digo que esta folha de relva será.
Ela veste-se em gelo,
Ela é mais direta
Que qualquer imagem eu faça.

Você diz que ela não é um poema,
É uma folha de relva e relva
Não é suficiente.
Eu ofereço uma folha de relva.

Você está indignada.
Você diz que é muito fácil oferecer relva.
É um absurdo.
Qualquer um pode oferecer uma folha de relva.

Você pede um poema.
E então eu escrevo uma tragédia sobre
Como uma folha de relva
Torna-se mais e mais difícil de oferecer,

E sobre como quando você envelhece
Uma folha de relva
Torna-se mais difícil de aceitar.




......




Este poema estará no Papel no Varal do dia 14/12/2011

segunda-feira, 8 de março de 2010

Não sei o quanto de mim sou mulher

Não sei o quanto de mim sou mulher
(Ricardo Cabús)
Não sei o quanto de mim sou mulher
Se na lágrima que deita calada
numa manhã cinzenta
Se na inconstância do desejo
que nuveia a tristeza

Não sei o quanto de mim sou mulher
Se no querer-me livre
assim como os outros
Se no querer-me onipresente
assim como Ele
Não sei...

Sei que de tanto gostar
carregá-la em mim
faz-me feliz

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Fogo e Gelo de Robert Frost


Acabei de traduzir este poema. Não costumo manter as rimas, mas neste poema achei fundamental.
(Robert Frost nasceu em 1874 nos EUA e faleceu em 1963)

Robert Frost

Fogo e gelo

Tradução: Ricardo Cabús

Alguns dizem que o mundo acabará em fogo,

Alguns dizem em gelo.

Do que provei de desejo sem arrogo

Eu fico com aqueles a favor do fogo.

Mas se houvesse duas vezes esse pesadelo,

Eu acho que sei do ódio o tom

Para dizer que para destruição o gelo

Também é muito bom

O bastante para sê-lo.

Fire and ice

Some say the world will end in fire,

Some say in ice.

From what I’ve tasted of desire

I hold with those who favor fire.

But if it had to perish twice,

I think I know enough of hate

To say that for destruction ice

Is also great

And would suffice.

sábado, 2 de janeiro de 2010

Charles Bukowski - Confissão

Charles Bukowski

Confissão

Tradução: Ricardo Cabús

esperando pela morte

como um gato

que vai pular na

cama


eu sinto muito pela

minha esposa


ela verá este

corpo

pálido

rígido


sacudirá uma vez

talvez

outra:


“Hank!”


Hank não

responderá.


não é a minha morte que

me preocupa, é minha esposa

deixada com esta

pilha de

nada.


eu quero

que ela saiba

no entanto

que todas as noites

dormindo

ao seu lado


mesmo as discussões

mais inúteis

foram esplêndidas


e as difíceis

palavras

que sempre temi

dizer

podem agora ser

ditas:


eu

te amo.






Confession

waiting for death

like a cat

that will jump on the

bed


I am so very sorry for

my wife


she will see this

stiff

white

body


shake it once, then

maybe

again:


"Hank!"


Hank won't

answer.


it's not my death that

worries me, it's my wife

left with this

pile of

nothing.


I want to

let her know

though

that all the nights

sleeping

beside her


even the useless

arguments

were things

ever splendid


and the hard

words

I ever feared to

say

can now be

said:


I love

you.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Sylvia Plath - Espelho

Sylvia Plath

Espelho

Tradução: Ricardo Cabús

Sou prateado e exato. Não tenho preconceitos.

Tudo o que vejo engulo imediatamente

Do jeito que é, desnevoado de amor ou aversão.

Não sou cruel, apenas sincero –

O olho de um pequeno deus, com quatro cantos.

Na maior parte do tempo contemplo a parede em frente.

É cor-de-rosa, com pequenas manchas. Já olhei tanto para ela

Que creio seja uma parte do meu coração. Mas ela vacila.

Faces e escuridão nos separam mais e mais.

Agora sou um lago. Uma mulher curva-se sobre mim,

Examinando em minha extensão o que ela realmente é.

Então ela se vira em direção àquelas mentirosas, as velas ou a lua.

Vejo suas costas e as reflito fielmente.

Ela me recompensa com lágrimas e um aceno de mãos.

Sou importante para ela. Ela vai e vem.

A cada manhã é a sua face que substitui a escuridão.

Em mim ela afogou uma menina e em mim uma anciã

Ergue-se em sua direção dia após dia, como um peixe terrível.


...........

Mirror

I am silver and exact. I have no preconceptions.

Whatever I see I swallow immediately

Just as it is, unmisted by love or dislike.

I am not cruel, just truthful -

The eye of a little god, four cournered.

Most of the time I meditate on the opposite wall.

It is pink, with speckles. I have looked at it so long

I think it is a part of my heart. But it flickers.

Faces and darkness separate us over and over.

Now I am a lake. A woman bends over me,

Searching my reaches for what she really is.

Then she turns to those liars, the candles or the moon.

I see her back, and reflect it faithfully.

She rewards me with tears and an agitation of hands

I am important to her. She comes and goes.

Each morning it is her face that replaces the darkness.

In me she has drowned a young girl, and in me an old woman

Rises toward her day after day, like a terrible fish.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Algumas das atrações de hoje no Papel no Varal de sexta-feira, 13

Algumas das atrações de hoje no Papel no Varal de sexta-feira, 13, a partir das 20h30:

O piano de Expedito Rossiter.
A voz de Leureny e o violão de Willbert Fialho. (Vai rolar "Penas do Tiê", do alagoano Hekel Tavares, que o Fagner gravou)
Os atores Ronaldo de Andrade e Homero Cavalcante interpretando "O Corvo" de Edgar Allan Poe.
Também dentro da programação de 99 anos do Teatro Deodoro, a exposição "Olhar dela" da fotógrafa Kelly Baeta estará no Café da Linda (fica até o dia 30/11).
No bar: cerveja em lata a R$ 2,50; churrasquinho R$ 2,50; tábua de frios R$ 10,00.

No varal, de Gregório de Matos a Charles Bukowski:


Gregório de Matos

Ao Braço do Mesmo Menino Jesus Quando Aparece

O todo sem a parte não é todo,
A parte sem o todo não é parte,
Mas se a parte o faz todo, sendo parte,
Não se diga, que é parte, sendo todo.

Em todo o Sacramento está Deus todo,
E todo assiste inteiro em qualquer parte,
E feito em partes todo em toda a parte,
Em qualquer parte sempre fica o todo.

O braço de Jesus não seja parte,
Pois que feito Jesus em partes todo,
Assiste cada parte em sua parte.

Não se sabendo parte deste todo,
Um braço, que lhe acharam, sendo parte,
Nos disse as partes todas deste todo.

Charles Bukowski

Para a puta que levou meus poemas

Tradução: Ricardo Cabús

Dizem que devemos afastar o remorso do
poema
manter-se abstrato, e há alguma razão nisto,
mas jesus;
doze poemas se foram e eu não tenho cópias e você levou
minhas pinturas também, as melhores; é sufocante:
você está querendo me sacanear como os outros?
Por que você não levou meu dinheiro? sempre tiram
das calças dos bêbados largados nas sarjetas.
De outra vez leve meu braço esquerdo ou uma nota de cinquenta
mas não meus poemas:
Eu não sou Shakespeare
e daqui a pouco simplesmente
não haverá mais, nem abstrato nem de jeito algum;
sempre haverá dinheiro e putas e bêbados
até que caia a última bomba,
mas como disse Deus,
cruzando as pernas,
eu sei que deixei um monte de poetas
mas
poesia ...

to the whore who took my poems

some say we should keep personal remorse from the

poem,

stay abstract, and there is some reason in this,

but jezus;

twelve poems gone and I don't keep carbons and you have

my

paintings too, my best ones; its stifling:

are you trying to crush me out like the rest of them?

why didn't you take my money? they usually do

from the sleeping drunken pants sick in the corner.

next time take my left arm or a fifty

but not my poems:

I'm not Shakespeare

but sometime simply

there won't be any more, abstract or otherwise;

there'll always be mony and whores and drunkards

down to the last bomb,

but as God said,

crossing his legs,

I see where I have made plenty of poets

but not so very much

poetry.


quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Violeta Parra no Papel no Varal


Pessoal,

Já é quase sexta-feira, 13. Estamos fazendo os últimos preparativos para que tenhamos uma agradável noite poética para todos.

As mesas - que serão colocadas nos jardins internos do Teatro Deodoro - já foram todas reservadas em menos de 24h. A produção do evento está providenciando um conjunto de cadeiras extras, que ficarão disponíveis para os participantes que chegarem mais cedo ao Teatro. Desde que preservadas as condições de conforto para todos, será livre o acesso aos jardins internos dos Teatros Deodoro e Arena. Os espaços do foyer e do Café da Linda também poderão ser ocupados pelos presentes.

Lembramos que o sarau será em palco aberto nos jardins do Teatro e o varal de poesias ficará abaixo das palmeiras, recebendo uma iluminação especial, a cargo de Edner Careca.

O serviço de bar estará disponível com barracas de bebidas e tira-gosto com preços interessantes (em breve divulgaremos o cardápio).

Dentre os poemas do varal vocês encontrarão uma tradução de Volver a los 17, de Violeta Parra, em uma homenagem a Mercedes Sosa, que cantou este poema aos quatro cantos, com sua voz bela e inesquecível.

Violeta Parra

Voltar aos 17

Tradução: Ricardo Cabús

Voltar aos dezessete depois de viver um século

É como decifrar signos sem ser sábio competente,

Voltar a ser de repente tão frágil como um segundo

Voltar a sentir profundo como uma criança frente a Deus

É isto que sinto agora neste instante fecundo.


Meu passo retrocedido quando o de vocês avança

O arco das alianças penetrou em meu ninho

Com todo seu colorido passeou por minhas veias

E até a dura corrente com que nos ata o destino

É como diamante fino que alumbra minha alma serena


O que pode o sentimento não é podido ao saber

Nem o mais claro proceder, nem o mais amplo pensamento

Tudo muda ao momento qual mago condescendente

Nos afasta docemente de rancores e violências

Só o amor com sua ciência nos torna tão inocentes.


O amor é torvelinho de pureza original

Até o feroz animal sussurra seu doce trino

Detém os peregrinos, liberta os prisioneiros,

O amor com seus esmeros torna o velho criança

E ao mau apenas o carinho o torna puro e sincero


A janela se abriu completamente como por encanto

Entrou o amor com seu manto como uma tépida manhã

Ao som de sua bela alvorada fez brotar o jasmim

Voando qual serafim ao céu colocou brincos

Meus anos em dezessete os converteu o querubim.


E vai enredando, enredando

Como no muro a hera

E vai brotando, brotando

Como o musgo na pedra

Como o musgo na pedra, ah, sim, sim, sim.


Volver a los 17

Volver a los diecisiete después de vivir un siglo Es como descifrar signos sin ser sabio competente, Volver a ser de repente tan frágil como un segundo Volver a sentir profundo como un niño frente a Dios Eso es lo que siento yo en este instante fecundo. Se va enredando, enredando Como en el muro la hiedra Y va brotando, brotando Como el musguito en la piedra Como el musguito en la piedra, ay si, si, si. Mi paso retrocedido cuando el de ustedes avanza El arco de las alianzas ha penetrado en mi nido Con todo su colorido se ha paseado por mis venas Y hasta la dura cadena con que nos ata el destino Es como un diamante fino que alumbra mi alma serena. Se va enredando, enredando (…) Lo que puede el sentimiento no lo ha podido el saber Ni el más claro proceder, ni el más ancho pensamiento Todo lo cambia al momento cual mago condescendiente Nos aleja dulcemente de rencores y violencias Solo el amor con su ciencia nos vuelve tan inocentes. Se va enredando, enredando (…) El amor es torbellino de pureza original Hasta el feroz animal susurra su dulce trino Detiene a los peregrinos, libera a los prisioneros, El amor con sus esmeros al viejo lo vuelve niño Y al malo sólo el cariño lo vuelve puro y sincero. Se va enredando, enredando (…) De par en par la ventana se abrió como por encanto Entró el amor con su manto como una tibia mañana Al son de su bella diana hizo brotar el jazmín Volando cual serafín al cielo le puso aretes Mis años en diecisiete los convirtió el querubín.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Poesia na propaganda da Java


Pessoal, está rolando uma propaganda da Java em tevês de Alagoas, com o poema "Sua Curva".

Sua curva

(Ricardo Cabús)

Sua curva

molha

e olha meu olho

colho calor

e desejo

Sua curva

turva

e sua meu peito

que cava a

sua cava

arrepia

e afoga de prazer

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Mulher adormecida estará no Papel no Varal de Agosto

Em homenagem ao poeta chileno Alfonso Calderon, falecido esta semana, traduzi o poema "Mujer dormida" para fazer parte do próximo Papel no Varal, nesta terça, dia 18, na Livraria Livro Lido (Jaraguá, Maceió-AL), a partir das 19h30.

O sarau - que tem o apoio cultural da Fundação Municipal de Ação Cultural (Prefeitura de Maceió) e do Instituto Zumbi dos Palmares (Rádio Educativa FM) - é composto por 100 poemas, de 101 autores do Brasil e do mundo (*), dependurados em um varal de sisal. Todos podem ler no palco qualquer poema do varal, desde que não seja o autor. Participação musical: Mácleim.

Mais informaçoes sobre o sarau em cacosinconexos.blogspot.com , papelnovaral@gmail.com ou pelo fone 82-8871-1705.

Mulher adormecida
Alfonso Calderon
Tradução: Ricardo Cabús

Estás sozinha na praia,
minha amada,
e teu corpo acariciado pelos ventos
lembra a espuma soluçante.

Estás sozinha, mas em tua solidão
sonhos virginais te rodeiam
e essa arquitetura tentadora do mar
nuveando ondas como corpos possuídos.

Sonhas, mas os sonhos, amor meu
são os arcos do amor,e depois na lembrança
só haverá um perfume de lábio pensativo
um sabor de planeta jacente e agitado
como a chuva, suave,
como o silêncio, doce,
como o esquecimento, absoluto.

Mujer dormida
Alfonso Calderon
Estás sola en la playa,
bienamada,
y tu cuerpo acariciado por los vientos
recuerda la espuma sollozante.

Estás sola, mas en tu soledad
virgíneos te rodean los sueños,
y esa arquitectura tentadora del mar
nimbando olas tal cuerpos poseídos.

Sueñas, mas los sueño, amor mío
son los arcos del amor,
y después en el recuerdo
sólo habrá un perfume a labio pensativo,
un sabor a planeta yacente y tembloroso,
como la lluvia, suave,
como el silencio, dulce,
como el olvido, absoluto.


...................................................
(*) Há um poema com autoria dupla

domingo, 9 de agosto de 2009

Ele deseja os tecidos do paraíso

William Butler Yeats
Tradução: Ricardo Cabús

Tivesse eu os tecidos bordados do paraíso,
Adornados com luz dourada e prateada,
Os azuis, sombrios e escuros tecidos
Da noite e da luz e da meia-luz,
Eu os estenderia sob seus pés:
Porém, sendo pobre, tenho apenas meus sonhos;
Eu estendi meus sonhos sob seus pés;
Pise suavemente porque você está pisando em meus sonhos.

He Wishes For The Cloths Of Heaven
William Butler Yeats
Had I the heavens’ embroidered cloths,
Enwrought with golden and silver light,
The blue and the dim and the dark cloths
Of night and light and the half light,
I would spread the cloths under your feet:
But I, being poor, have only my dreams;
I have spread my dreams under your feet;
Tread softly because you tread on my dreams.

terça-feira, 7 de julho de 2009

terça-feira, 23 de junho de 2009

Poema de Auden

Funeral Blues
W. H. Auden
Tradução: Ricardo Cabús

Parem todos os relógios, desliguem o telefone,
Evitem o latido do cachorro com um osso suculento
Silenciem os pianos e com o rufar silencioso do tambor
Tragam o caixão, deixem vir o cortejo.

Deixem aviões circularem gemendo sobre nós
Rascunhando no céu a mensagem Ele Está Morto,
Coloquem laços de crepe nos pescoços brancos das pombas da praça,
Deixem o guarda de trânsito calçar luvas negras de algodão.

Ele era meu Norte, meu Sul, meu Leste e Oeste,
Minha semana de trabalho e meu domingo de descanso,
Meu meio-dia, minha meia-noite, minha fala, meu canto;
Eu pensava que o amor durava para sempre: estava errado.

Agora as estrelas não são mais necessárias: apaguem-nas;
Empacotem a lua e desmantelem o sol;
Esvaziem o oceano e varram a floresta.
Porque agora nada faz sentido.

Funeral Blues
Stop all the clocks, cut off the telephone,
Prevent the dog from barking with a juicy bone,
Silence the pianos and with muffled drum
Bring out the coffin, let the mourners come.

Let aeroplanes circle moaning overhead
Scribbling on the sky the message 'He is Dead'.
Put crepe bows round the white necks of the public doves,
Let the traffic policemen wear black cotton gloves.

He was my North, my South, my East and West,
My working week and my Sunday rest,
My noon, my midnight, my talk, my song;
I thought that love would last forever: I was wrong.

The stars are not wanted now; put out every one,
Pack up the moon and dismantle the sun,
Pour away the ocean and sweep up the woods;
For nothing now can ever come to any good.

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Passatempo - Mario Benedetti

Passatempo
Mario Benedetti
Tradução: Ricardo Cabús

Quando éramos crianças
os velhos tinham trinta
uma poça era um oceano
a morte definitivamente
não existia.

Então quando jovens
os velhos eram gente de quarenta
um reservatório um oceano
a morte apenas
uma palavra.

E quando nos casamos
os anciãos estavam com cinquenta
um lago era um oceano
a morte era a morte
dos outros.

Agora veteranos
e que alcançamos a verdade
o oceano é enfim o oceano
mas a morte passa a ser
a nossa.

Pasatiempo

Cuando éramos niños

los viejos tenían como treinta

un charco era un océano

la muerte lisa y llana

no existía.

Luego cuando muchachos

los viejos eran gente de cuarenta

un estanque un océano

la muerte solamente

una palabra.

Ya cuando nos casamos

los ancianos estaban en cincuenta

un lago era un océano

la muerte era la muerte

de los otros.

Ahora veteranos

ya le dimos alcance a la verdad

el océano es por fin el océano

pero la muerte empieza a ser

la nuestra.